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Abaixo o Ensino de Física no Ensino Médio! |
"A Física deve ser ensinada e aprendida, portanto, por causa de sua fascinação hipnótica, pela ilusão que infunde nos seus praticantes de que, se dominarem algumas leis da natureza, adquirem com isto condições para dominar o todo da vida humana." André A. Abramczuk, Ex-professor de Física da UFPR.
"Alguém poderá dizer que o muito estudar me deixou louco e que agora estou falando contra mim mesmo, uma vez que vivo do Ensino de Física para o Ensino Médio; no entanto, essa idéia vem já há algum tempo proliferando em minha mente, e somente agora pude perceber o quanto sou contra ensinar Física, simplesmente, neste nível da educação de nossos jovens... Talvez o termo "contra" acabe por denotar algum sensacionalismo, mas a lógica exata segue abaixo.", Física Real.
Ensinar pra quê? Esta pergunta pode parecer medíocre
para muitos professores, principalmente àqueles mais especializados nas
assim denominadas ciências da educação. Assim julga-se porque nascemos
numa sociedade onde o conhecimento adquiriu o seu valor há muito tempo,
e questionar sua transmissão soa como loucura. Mas como começou isso
tudo?
E isso repetidamente, para todos os tópicos. Assim o objetivo original
se perdeu nos exercícios, e passou a ser os próprios exercícios. Hoje
os professores de física ensinam como resolver exercícios de bloquinhos
empurrando bloquinhos, ou bloquinhos pendurados em outros que arrastam
outros; corpos de caem de alturas de 45m sem resistência do ar, aviões
que jogam objetos de 3km de altura ainda sem resistência com o ar,
cargas elétricas voadoras que penetram em regiões com campos elétricos
ou magnéticos e passam a girar, ou objetos que deslizam sobre
superfícies inclinadas sem qualquer atrito. Tudo isso tem seu lugar
quando o objetivo é ensinar a analisar os fenômenos naturais. Mas será que o tempo do curso de Física para o Ensino Médio permite isso?
Por
Flávio E. Souza da Cunha.
Muitos filósofos, sociólogos e historiadores já tentaram descrever como
se desenvolveu a atual estruturação do conhecimento e sua transmissão
que, em nossa sociedade, ocorre nas escolas. Engels, por exemplo,
retorna à sociedade primitiva e relaciona o acúmulo do conhecimento ao
domínio das técnicas de produção; assim, em sua descrição
antropológica, o conhecimento possibilita o domínio dos meios de
produção, concedido à minoria da população, que controla a sociedade.
Já o domínio das técnicas de produção, conhecimento que deve ser
repassado de geração em geração, permanece com a maioria da população.
A conseqüência dessa dicotomia é a alienação daqueles que ficam apenas
com a parte do conhecimento que diz respeito às técnicas. A esses não é
permitido crescer, criar ou desenvolver. Desde que Taylor lançou os
fundamentos da produção em série, o conhecimento tem sido tratado como
parte do treinamento da população para adentrar o universo capitalista
moderno.
Historicamente vemos que nossa cultura herdou dos antigos gregos a
noção de ciência. Aqueles, admirados e obcecados em compreender a
Natureza, o Universo Interior e Exterior, tratavam o conhecimento como
o alimento dos deuses que, se devidamente sorvido pelos fracos seres
humanos, concederia a estes um crescimento como o daqueles. Assim, cedo
aprenderam a repudiar o trabalho físico que, uma vez que possibilitava
apenas exercitar os perecíveis músculos mortais, não servia para a
eternidade da alma; e esta, portanto, só poderia crescer mediante o
freqüente exercício da mente nas mais insólitas viagens da
imaginação... Não foi à toa que foram dos gregos que tomamos a palavra
“trabalho”, que para eles nada mais era que uma máquina de tortura [1].
Foi assim que surgiram as primeiras especulações acerca do movimento
dos astros e da estrutura da matéria; assim é que hoje temos teorias
como a atômica (que deu origem à energia nuclear) e a noção de buracos
negros existentes nos distantes algures de nosso Universo.
Mas não faz mais que 400 anos que a classe dos burgueses exigiu a
escola para si também. No entanto, na época em que isso ocorreu esta
era a classe oprimida que chacoalhava do jugo da classe dominante. O
problema começou a acontecer quando esta classe se tornou a dominante e
a escola conquistada, que antes servia às necessidades da maioria,
passou a servir às necessidades exclusivas da atual burguesia e o
proletariado, agora em maior número, permaneceu às escuras. Assim é que
hoje temos um verdadeiro campo de batalha nas escolas, e estas mais se
parecem com as linhas de produção em série de Ford do que com o
ambiente acadêmico onde o conhecimento é desenvolvido tanto por alunos
quanto por professores.
Temos aí, portanto, três linhas descritivas do desenvolvimento do
conhecimento (seu acúmulo e transmissão), tal como o conhecemos hoje e
todas as três mostram a tendência que este tem de servir sempre à
minoria que domina desfavoravelmente à maioria. Assim é que tornamos à
velha pergunta que se manifesta sempre na cabeça dos professores
novatos que, cheios de ideais profissionais, adentram no Universo
complexo e multifacetado da docência: ensinar para quê?
Pensássemos como os gregos e diríamos que ensinamos simplesmente porque
o conhecimento enobrece a alma, e é digno de honra aquele que o busca;
o dever do professor passa a ser ensinar não apenas o conhecimento, mas
tal postura aos alunos. Daí a guerra. Os professores tentam ensinar uma
atitude através de procedimentos. Isso já seria difícil de fazer tentando através de conceitos
- quanto mais difícil será por procedimentos vazios e sem sentido para
a vida. Raras vezes encontramos aqueles alunos que, por algum motivo em
sua história particular de vida, têm esta sede de conhecimento que os
professores desejariam existisse em todos, mas estes representam cerca
de 1 caso em 20.
Ou seguíssemos a linha de raciocínio que implantou a escola em nossa
sociedade, e deveríamos todos desejar que todas as escolas fossem
técnicas, para melhor inserir os alunos no mercado de trabalho, como
dóceis e domesticados trabalhadores capazes de carregar suas pesadas
cargas sem reclamar.
Quanto a mim, repudio ambas as linhas de pensamento. Não quero herdar
aquela postura dos gregos - afinal, quem eram eles? Donos e opressores
de escravos, tinham uma noção deturpada do trabalho... Por que eu
deveria aceitar algum conceito que viesse deles? É certo que todo o
“progresso” e desenvolvimento tecnológico obtido pelas gerações atuais
foram graças a eles. Mas foi o melhor caminho escolhido? Não haveria um
melhor onde fossem evitados também toda a morte e aviltamento do ser
humano como tem ocorrido desde a Revolução Industrial, obra mestra da
ciência ocidental?
Por isso quero propor um novo ensino, que reúna o que há da mais
radical em todas as mudanças ocorridas na Educação até então. Mas nem o
que é radical é bom ou positivo; Hitler foi extremamente radical, por
exemplo. Mas Jesus também foi radical, e ambos seguiram cominhos
opostos. Ou seja, podemos ser radicais em educação e melhorá-la ainda
assim; aliás, devemos ser radicais ou não vamos mudar nada.
Como professor de Física para o Ensino Médio, quero exemplificar com esta disciplina.
Lembro-me bem quando dei aulas pela primeira vez, não faz muito tempo -
em 1998, numa escola pública noturna -, e vi-me, certa noite, corroído
pela questão principal deste ensaio. A matéria que acabara de ensinar
era termodinâmica, e o tópico eram as transformações gasosas; mais
especificamente, naquela noite eu “ensinara” como calcular o trabalho
realizado por um gás em expansão... De repente olhei para a classe,
aqueles jovens cansados do trabalho, sem os requisitos matemáticos
necessários para compreender do que se tratava e sem a motivação
necessária; por que, afinal de contas, tinham que aprender aquilo? Que
lhes importava o trabalho realizado por um gás em expansão? Então me
senti estuprando-lhes a consciência; e mesmo aqueles dois ou três
alunos mais capacitados, que se esforçavam para fazer os exercícios, de
repente se me tornaram vãos, vazios.
Foi necessário todo o tempo transcorrido até então, e várias tentativas
frustradas ou mais ou menos frustradas, para que eu fosse gradualmente
formulando um remédio para aquela situação que me fez repensar o por
quê de ser professor - essa questão tão desprezada por muitos mestres e
doutores, mas que ninguém se presta a respondê-la devidamente.
A Física representa, para a ciência, uma espécie de referencial do
bem-sucedido método científico; afinal a prática experimental se tornou
ilustre com grandes mestres tais como Galileu e Newton, que são
considerados os patriarcas da Física. Sendo assim, ensiná-la e
aprendê-la deveria ser considerado uma grande honra, porque tudo o que
temos e nos rodeia vem da Física: a luz, o computador, as máquinas, os
automóveis, etc. A Química desenvolveu-se a partir dos princípios
físicos, e muito da Biologia tem suas bases fundamentadas sobre a
Física; se estas são as ciências básicas, então é justo dizer que a
Física é o fundamento de todas as ciências. Ensinar Física, por si só,
parece ser, portanto, algo que tem valor intrínseco, assim como tem
valor, para a humanidade o conhecimento geral. Logo, a resposta parece
ser a mesma: por que ensinar Língua Portuguesa, ou por que ensinar
Matemática? São conhecimentos adquiridos pela humanidade e devem ser
mantidos.
No entanto, não se pode comparar a postura que os alunos têm para
estudar Língua Portuguesa e a postura que têm ao estudar Física. Não se
pode questionar, no caso da Língua Portuguesa: “por que vou estudar isso?”
pois ao perguntar, se está respondendo: a comunicação clara e precisa.
O mesmo não se dá em relação à Física. Os alunos vivem a perguntar:
onde vou aplicar isso? Para quê devo aprender isso? E se o professor se
puser a explicar o exposto acima, a respeito da postura que se deve ter
diante do conhecimento adquirido pela humanidade, somente obterá
suspiros de lamentos. Ou o professor pode usar exemplos: olhe as
lâmpadas, a TV, os computadores - tudo é devido ao desenvolvimento da
Física. Mas a isso o aluno responderá: “e daí, não pretendo trabalhar com essas coisas, nem fabricá-las”.
E ainda que essa resposta seja imatura e inconseqüente, parece ter a
maior lógica do mundo ao jovem que, a partir disso, se fecha ao
conhecimento. E que trabalho o professor terá para mudar tal postura!
Se é que é possível fazê-lo.
De fato, o objetivo do professor de Física, Química ou Biologia não é
ensinar a resolver exercícios ou procedimentos vazios. O objetivo
original é ensinar a compreender e analisar os fenômenos naturais a partir dos conceitos daquelas ciências. Mas para conseguí-lo, criou-se a seguinte técnica:
Nas faculdades de Física, o aluno é levado a abstrair desses problemas
para problemas reais, com uma matemática avançada, e novos conceitos de
Física; é levado a aplicar a teoria à prática, com os devidos cálculos
dos erros sistemáticos e suas causas. Mas isso passa longe do Ensino
Médio... Se estivéssemos preparando todos a fazer faculdade de Física,
seria justo ensinar os procedimentos mencionados no último parágrafo,
mas em quase a totalidade dos casos, o Ensino Médio será o último lugar
onde o aluno aprenderá Física, exceto naqueles colégios técnicos, onde
a maioria parte para cursos das exatas.
Assim, o curso de Física para o Ensino Médio tal como temos hoje é algo
inacabado e permanece inacabado para a maioria dos alunos. Isso porque
pretende ensinar a Física pela Física, pelo valor que ela tem por si
só, e não chega a fazê-lo; para que isso fosse possível, deveria ter
duração de pelo menos mais dois ou três anos e isso é obviamente
inviável. Logo, ensinar Física
no Ensino Médio não tem sentido. Assim como também não o tem ensinar
Química ou Biologia. Não me arrisco a dizer das humanas, tal como
Geografia e História, mas pretendo que as coisas que esboço aqui se
apliquem indiscriminadamente, feitas as devidas adequações.
O aluno de Ensino Médio não precisa aprender A Física; precisa aprender
as aplicações da Física em seu mundo, para compreender os fenômenos, e
controlá-los melhor, para seu benefício, se isso for possível. O mesmo
com relação à Química e à Biologia. Isso é feito em parte, quando os
professores bondosos aplicam os conceitos para o dia-a-dia, em forma de
exemplos; mas isso geralmente é rápido e abafado pela necessidade cega
de cumprir o currículo frio e seco, com as toneladas de exercícios
irreais, cujo objetivo era ensinar A Ciência. E muito se tem estimulado
os professores a relacionar suas disciplinas com o dia-a-dia desde os
Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s). No entanto, o objetivo não
mudou: continua sendo ensinar A Disciplina! Pois o objetivo deve sofrer
uma mudança radical, então poderemos ter um ensino efetivo nas escolas
novamente.
Proponho mudar o nome da disciplina; no lugar de Física, colocaremos: Análises Físicas da nossa Sociedade [2].
Pode até ser que, para enxugar as frases, os alunos continuem chamando
de “Física”. Mas o nome ajudará o professor a se conscientizar que não
está a ensinar Física, simplesmente, mas sim suas aplicações. Os
exercícios mencionados acima perdem o seu lugar para discussões sobre
os problemas reais da nossa sociedade; os procedimentos vazios perdem o
lugar para análises críticas de situações, com a aplicação dos
conceitos da Física. A história da física passa a ser necessária para
se compreender a relação do conceito com a necessidade do mundo real, e
a importância do conhecimento enquanto aquisição humana. A tabela
abaixo sugere as alterações dos conteúdos do 1º ano do Ensino Médio com
as quais sonho.
Conteúdo de Física Conteúdo de Análises Físicas da nossa Sociedade (os temas entre parênteses são conceitos extras ao conteúdo principal relacionado pela coluna esquerda). Cinemática.
Veículos e Trânsito. Dinâmica.
Ciência e Religião. Energia, potência e trabalho.
Produção e consumo de Energia pelo homem.
Claro que para efetuá-las, o professor deverá se aprofundar no
conhecimento de diversas outras disciplinas, tal como história,
geografia, legislação, filosofia, religião, física quântica, biologia,
engenharia, mecânica de automóveis, elétrica residencial, etc. Essa é a
verdadeira interdisciplinaridade - e não apenas o trabalho conjunto de
dois ou três professores sobre o mesmo tema. Como cita Abramczuk: “a
especialização é para os insetos”.
______________________
Referências:
[1] De fato, a palavra trabalho vem do grego, trapallium, que nomeia uma máquina de tortura usada para punir prisioneiros e escravos.
[2] O mesmo para as outras ciências: Análises Químicas da nossa Sociedade e Análises Biológicas da nossa Sociedade.
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| Bibliografia |
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André Ambrósio Abramczuk, O Mito da Ciência Moderna - Proposta de análise da Física como base de Ideologia totalitária, Cortez Editora/Autores Associados, 1981. Outros textos serão em breve referidos. Qualquer urgência, contate-me. |
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