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Principia... |
O texto a seguir é uma transcrição do "Escólio Geral" do livro Principia,
escrito por Isaac Newton. No Ensino Médio, ao se tratar das leis de Newton para o movimento,
pode-se discutir com os alunos a questão "ciência x fé", baseado em leituras coletivas,
em grupos ou individuais de alguns trechos. Isso acaba fornecendo a imagem humana da ciência,
de que tanto carecem os livros didáticos.
A hipótese dos vórtices se defronta com muitas dificuldades. A fim de que
todo planeta possa descrever, por um raio traçado com relação ao sol, áreas proporcionais aos
tempos de descrição, os tempos periódicos das várias partes dos vórtices devem observar o
quadrado de suas distâncias do sol; mas, a fim de que os tempos periódicos dos planetas possam
obter os 3/2 do poder de suas distâncias do sol, os tempos periódicos das partes do vórtice
devem ser como os 3/2 do poder de suas distâncias. Para que os vórtices menores possam manter
suas revoluções menores ao redor de Saturno, Júpiter e outros planetas e deslizar suavemente
e imperturbáveis no maior vórtice do sol, os tempos periódicos das partes do vórtice do sol
devem ser iguais; mas a rotação do sol e dos planetas em torno de seus eixos, que deve
corresponder ao movimento de seus vórtices, está muito aquém de todas essas proporções. Os
movimentos dos cometas são extremamente regulares, são governados pelas mesmas leis que os
movimentos dos planetas e não podem de forma alguma servir de explicação para as hipóteses
dos vórtices; pois os cometas são conduzidos por movimentos bastante excêntricos através de
todas as partes dos céus indiferentemente, com toda uma liberdade que é incompatível com
a noção de um vórtice.
Corpos lançados em nosso ar não sofrem nenhuma resistência além da do ar. Retire-se o
ar, como é feito no vácuo do Sr. Boyle, e a resistência cessa; pois nesse vazio uma pena e um
pedaço de ouro sólido descem com velocidade igual. E o mesmo argumento deve-se aplicar aos espaços
celestiais acima da atmosfera da terra; nesse espaços, onde não existe ar para resistir aos
seus movimentos, todos os corpos de moverão com o máximo de liberdade; e os planetas e cometas
prosseguirão constantemente suas revoluções em órbitas dadas em espécie e posição de acordo com
as leis acima explicadas; mas, apesar de tais corpos poderem, com efeito, continuar em suas
órbitas pela simples lei da gravidade, todavia eles não podem de modo algum ter, em princípio,
derivado dessa lei a posição regular das próprias órbitas.
Os seis planetas primários são revolucionados em torno do sol em círculos concêntricos
ao sol, com movimentos dirigidos em direção às mesmas partes e quase no mesmo plano. Dez luas
são revolucionadas em torno da terra, Júpiter e Saturno, em círculos concêntricos a eles, com a
mesma direção de movimento e quase nos planos das órbitas desses planetas; mas não se deve conceber
que simples causas mecânicas poderiam dar origem a tantos movimentos regulares, desde que os
cometas erram por todas as partes dos céus em órbitas bastante excêntricas; pois por essa espécie
de movimento eles passam facilmente pelas órbitas dos planetas e com grande rapidez; e em seus
apogeus, onde eles se movem com o mínimo de velocidade e são detidos o máximo de tempo, eles recuam
às distâncias máximas entre si e sofrem, portanto, a perturbação mínima de suas atrações mútuas.
Este magnífico sistema do sol, planetas e cometas poderia somente proceder do conselho e
domínio de um Ser inteligente e poderoso. E, se as estrelas fixas são os centros de outros
sistemas similares, estes, sendo formados pelo mesmo conselho sábio, devem estar todos sujeitos
ao domínio de Alguém; especialmente visto que a luz das estrelas fixas é da mesma natureza que a
luz do sol e que a luz passa de cada sistema para todos os outros sistemas: e para que os sistemas
das estrelas fixas não caiam, devido a sua gravidade, uns sobre os outros, ele colocou esses
sistemas a imensas distâncias entre si.
Esse Ser governa todas as coisas, não como a alma do mundo, mas como Senhor de tudo; e
por causa do seu domínio costuma-se chamá-lo Senhor Deus Pantokrátor, ou Soberano
Universal; pois Deus é uma palavra relativa e tem uma referência a servidores; e
Deidade é o domínio de Deus não sobre seu próprio corpo, como imaginam aqueles que
supõem Deus ser a alma do mundo, mas sobre os serventes. O Deus Supremo é um Ser eterno,
infinito, absolutamente perfeito; mas um ser, mesmo que perfeito, sem domínio, não pode dizer-se
ser Senhor Deus; pois dizemos, meu Deus, seu Deus, o Deus de Israel, o Deus dos Deuses, e Senhor
dos Senhores; mas não dizemos, meu Eterno, seu Eterno, o Eterno de Israel, o Eterno dos Deuses;
não dizemos, meu Infinito ou meu Perfeito; estes são títulos que não têm referência aos
servidores. A palavra Deus comumente significa Senhor; mas nem todo senhor é um
Deus. É o domínio de um ser espiritual que constitui um Deus: um domínio verdadeiro, supremo
ou imaginário. E de seu domínio verdadeiro segue-se que o Deus verdadeiro é um Ser vivente,
inteligente e poderoso; e, de suas outras perfeições, que ele é supremo ou o mais perfeito. Ele
é eterno e infinito, onipotente e onisciente; isto é, sua duração se estende da eternidade à
eternidade; sua presença do infinito ao infinito; ele governa todas as coisas e conhece todas
as coisas que são ou podem ser feitas. Ele não é eternidade e infinitude, mas eterno e infinito;
ele não é duração ou espaço, mas ele dura e está presente. Ele dura para sempre, e está presente
em todos os lugares; e, por existir sempre e em todos os lugares, ele constitui a duração e o
espaço. Desde que toda partícula do espaço é sempre, e todo momento indivisível de duração
está em todos os lugares, certamente o Criador e Senhor de todas as coisas não pode ser
nunca e estar em nenhum lugar. Toda alma que tem percepção é, embora em tempos
diferentes e em diferentes órgãos dos sentidos e movimento, ainda a mesma pessoa indivisível.
Existem partes sucessivas dadas na duração, partes coexistentes no espaço, mas nem uma nem outra
pessoa de um homem, ou de seu princípio pensante; e muito menos podem elas ser encontradas na
substância pensante de Deus. Todo homem, até o ponto em que ele seja uma coisa que tem percepção,
é um e o mesmo homem durante toda sua vida, em todos e cada um dos seus órgãos dos sentidos.
Deus é o mesmo Deus sempre e em todos os lugares. Ele é onipresente não somente virtualmente,
mas também substancialmente; pois a virtude não pode subsistir sem substância. Nele,
são todas as coisas contidas e movidas; todavia nenhum afeta o outro: Deus não sofre nada do
movimento dos corpos; os corpos não encontram nenhuma resistência da onipresença de Deus. É
admitido por todos que o Deus Supremo existe necessariamente; e pela mesma necessidade ele
existe sempre e em todos os lugares. De onde ele é todo similar, todo olho,
todo ouvido, todo cérebro, todo braço, todo poder para perceber, entender e agir; mas de certo
modo não é, em absoluto, humano, de certo modo não é, em absoluto corpóreo, de certo modo é
totalmente desconhecido para nós. Assim como um homem cego não tem idéia das cores, nós também
não temos idéia da maneira pela qual o todo-sábio Deus percebe e entende todas as coisas. Ele
é completamente destituído de todo corpo e figura corporal, e não pode portanto nem ser visto,
nem ouvido, nem tocado; nem deve ser ele adorado sob a representação de qualquer coisa corporal.
Temos idéia de seus atributos, mas o que a substância real de qualquer coisa é nós não sabemos.
Nos corpos, vemos somente suas figuras e cores, ouvimos somente os sons, tocamos somente suas
superfícies exteriores, cheiramos somente os cheiros, e provamos os sabores; mas suas substâncias
interiores não deverão ser conhecidas nem por nossos sentidos, nem por qualquer ato reflexo de
nossas mentes: muito menos temos qualquer idéia da substância de Deus. Nós o conhecemos somente
por suas invenções mais sábias e excelentes das coisas e pelas causas finais; o admiramos
por suas perfeições; mas o reverenciamos e adoramos por causa de seu domínio: pois nós o adoramos
como seus serventes; e um deus sem domínio, providência e causas finais não é nada além de Destino
e Natureza. A necessidade metafísica cega, que certamente é a mesma sempre e em todos os lugares,
não poderia produzir nenhuma variedade de coisas. Toda aquela diversidade das coisas naturais
que encontramos adaptadas a tempos e lugares diferentes não se poderia originar de nada a não ser
das idéias e vontade de um Ser necessariamente existente. Mas, para servir de alegoria, Deus é
dito ver, falar, rir, amar, odiar, desejar, dar, receber, regozijar-se, estar faminto, lutar,
inventar, trabalhar, construir; pois tdoas as nossas noções de Deus são tomadas dos caminhos
da humanidade por uma certa similitude, que, apesar de não ser perfeita, tem, entretanto, alguma
semelhança. E dessa forma muito do que concerne a Deus, no que diz respeito ao discurso sobre
ele a partir das aparências das coisas, certamente pertence à filosofia natural.
Até aqui explicamos os fenômenos dos céus e de nosso mar pelo poder da gravidade, mas ainda
não designamos a causa desse poder. É certo que ele deve provir de uma causa que penetra nos
centros exatos do sol e planetas, sem sofrer a menor diminuição de sua força; que opera não de
acordo com a quantidade das superfícies das partículas sobre as quais ela age (como as causas
mecânicas costumam fazer), mas de acordo com a quantidade da matéria sólida que elas contém, e
propaga sua virtude por todos os lados a imensas distâncias, decrescendo sempre no quadrado
inverso das distâncias. A gravitação com relação ao sol é composta a partir das gravitações com
relação das várias partículas das quais o corpo do sol é composto; e ao afestar-se do sol diminiu
comm exatidão na proporção do quadrado inverso das distâncias até a órbita de Saturno, como
evidentemente aparece do repouso do apogeu dos planetas; mais ainda, e mesmo para os mais remotos
apogeus dos cometas, se estes apogeus estão também em repouso. Mas até aqui não fui capaz de
descobrir a causa dessas propriedades da gravidade a partir dos fenômenos, e não construo nenhuma
hipótese; pois tudo que não é deduzido dos fenômenos deve ser chamado de uma hipótese; e as
hipóteses, quer metafísicas ou físicas, quer de qualidades ocultas ou mecânicas, não lugar na
filosofia experimental. Nessa filosofia as proposições particulares são inferidas dos fenômenos,
e depois tornadas gerais pela indução. Assim foi que a impenetrabilidade, a mobilidade e a
força impulsiva dos corpos, e as leis dos movimentos e da gravitação foram descobertas. E para
nós é suficiente que a gravidade realmente exista, aja de acordo com as leis que explicamos e que
sirva abundantemente para considerar todos os movimentos dos corpos celestiais e de nosso mar.
E agora poderíamos acrescentar algo concernente a um certo espírito mais sutil que
penetra e jaz escondido em todos os corpos sólidos; um espírito através de cuja força e ação
as partículas dos corpos se atraem entre si a distâncias próximas, e se unem, se contíguas;
e os corpos elétricos operam a distâncias maiores, tanto repelindo como atraindo os corpúsculos
vizinhos; e a luz é emitida, refletida, refratada, infletida, e esquenta os corpos; e toda
sensação é excitada e os membros dos corpos animais movem-se ao comando da vontade, notadamente
pela vibração desse espírito, mutuamente propagada ao longo dos filamentos sólidos dos nervos, dos
órgãos exteriores dos sentidos até o cérebro, e do cérebro até os músculos. Mas essas são
coisas que não podem ser explicadas em poucas palavras, nem estamos providos daquela suficiência
de experimentos que é requerida para uma determinação precisa e para uma demonstração das leis
pelas quais esses espíritos elétricos e elásticos operam.
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