Física Real, Prof. Flávio Cunha.

Teoria da Simulação de Julgamento

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O caso.

 

Depoimento da testemunha (carona, de dentro do carro): o motorista e a testemunha  saíram de um estabelecimento sito na esquina anterior ao local do acidente, entraram calmamente no carro. O motorista ligou o carro e deu-lhe uma aceleração média (“puxando” o motor, mas não no máximo), provocando um ruído característico. No momento em que o carro partiu, o pedestre, tendo visto o carro e estando no meio da calçada, continuou andando normalmente. A testemunha opina que ambos acharam que daria tempo: a vítima de sair da frente do carro e o motorista achou que a vítima voltaria atrás.

Dados da perícia: o carro é um Santana 2.0 novo, podendo acelerar de 0 a 100km/h em 10,3s. Foi realizado o teste alcoólico e encontrado que o motorista não estava bêbado. Na posição em que o pedestre estava, não era possível distinguir o som da aceleração do carro por causa do intenso barulho provocado pela obra atrás de si. A velocidade máxima permitida no local é de 60km/h (perímetro urbano). A visibilidade é perfeita. A vítima não tem problemas de audição nem de visão. Foi levada ao hospital mais próximo pelas autoridades locais, chamadas pelo motorista, onde está se recuperando de fraturas e outros ferimentos.

 

As contas.

 

1.     Tempo para chegar ao pedestre com aceleração normal:

Aceleração normal: estimativa baseada na aceleração máxima: amáxima = 100km/h/10,3s @ 9,7km/h/s = 2,7m/s². Logo a aceleração normal pode ser 1,0m/s².

Tempo de aceleração até chegar no pedestre:

x = x0 + v0×t + ½ a×

onde posição x = 40m; posição inicial x0 = 0; velocidade inicial v0 = 0; tempo t = ?; aceleração a = 1,0m/s².

40 = 0 + 0×t + ½ 1× à 40 = ½

= 80 à t = 80 @ 8,9s.

 

2.     Velocidade máxima com aceleração normal:

Tempo t = 8,9s (ver acima).

Velocidade máxima atingida:

anormal = 1m/s/s, depois de 8,9s à Dv = 1×8,9 = 8,9m/s @ 32km/h.

 

3.     Tempo para chegar ao pedestre com aceleração máxima:

Aceleração máxima: 2,7m/s².

Tempo de aceleração até chegar ao pedestre (mesmo raciocínio anterior):

40 = ½×2,7× à = 2×40/2,7

t @ 29,6 @ 5,4s

 

4.     Velocidade máxima com aceleração máxima:

Tempo t = 5,4s (ver acima).

Velocidade máxima atingida:

amáxima = 2,7m/s² , depois de 5,4s à Dv = 5,4×2,7 = 14,6m/s @ 52,5km/h

 

5.     Aceleração “real” (baseado no tempo do pedestre para chegar ao ponto do acidente):

à t = 6/1,0 = 6s

 
Velocidade do pedestre (estimativa): 1,0m/s.       

Distância percorrida (no desenho): 6m.

 

Temos novamente:

x = x0 + v0×t + ½ a×

onde x = 40; x0 = 0; t = 6s; a = ?. Logo:

 

40 = 0 + 0×t + ½ a×à 40 = 18×a à a = 2,2m/s²

Que bate com o depoimento da testemunha de que não era a máxima, mas também não era pequena (o motor estava “puxando”).

 

6.     Aceleração que deveria ter para dar tempo ao pedestre atravessar saindo da frente:

à t = 7/1,0 = 7s

 
Velocidade do pedestre (estimativa): 1,0m/s

Distância percorrida (no desenho): (6+1)m = 7m

 

Seguindo o mesmo raciocínio anterior:

40 = 0 + 0×t + ½ a×à 40 = 24,5×a

a = 40/24,5 = 1,6m/s².

 

 

Análise dos resultados acima.

 

Primeiramente vemos que era impossível ao motorista transgredir o limite de velocidade do local (60km/h), pois mesmo que estivesse usando a aceleração máxima de seu carro, chegaria a uma velocidade máxima de ~53km/h (resultado 4).

No entanto, comparando-se a aceleração máxima (resultado 1) com a aceleração “real” (resultado5), vemos que esta é cerca de 82% daquela, ou seja, a aceleração foi quase a máxima, o que já incrimina o motorista (a lei de trânsito proíbe usar qualquer dos limites de um carro – inclusive de aceleração). Mesmo a aceleração que poderia ter para dar tempo ao pedestre (resultado 6), que é maior que a aceleração normal, é menor que a aceleração real. Ou seja: se o motorista não imprimiu a aceleração máxima ao carro, imprimiu-lhe uma aceleração MUITO alta.

Dos dados utilizado na obtenção do resultado 5, percebemos que o carro levou 6s para chegar ao pedestre, o que representa uma diminuição de 3s do tempo com aceleração normal (resultado 1), tempo este suficiente para evitar este tipo de acidente.

Logo, a responsabilidade do atropelamento é totalmente do motorista, dado que nem sequer ouvir a alta aceleração do carro foi permitido ao pedestre.

 

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